14 June 2010

Cuidado com os “cantos de sereia”

As consequências mais palpáveis da crise financeira têm sido mais sentidas por aqueles que perderam o seu posto de trabalho e também por aqueles que apenas têm acesso a trabalhos de carácter precário, sem direitos. A partir de 1 de Junho, a “crise” vai ser sentida ainda pelos que, tendo trabalho, vão ter um maior desconto no fim do mês para “ajudar” a responder à crise, de que não podem ser acusados de serem os causadores. Simultaneamente, continuamos a ser informados das transferências de avultadas verbas para as “offshores” quer da Madeira quer de outros paraísos fiscais, sem que o governo trate de taxar essas transferências – como aliás acontece em outros países da União Europeia.

Tanto me faz que o Sr. Eng. Sócrates se ria despudoradamente no Parlamento, dizendo que estas são visões ingénuas da situação. O que todos sabemos é que são verdade e podiam contribuir para minorar as dificuldades que, todos os dias, são criadas aos portugueses com menor poder de compra.

É claro que haverá sempre paliativos e que depois da visita do chefe de Estado do Vaticano, que durante uns dias fez desaparecer da comunicação social as notícias da crise, vem agora o campeonato do mundo de futebol, com a inenarrável série de peripécias empoladas, que farão passar para segundo plano a crise nacional, o desemprego e o rol de misérias associadas.

Como afirmei há algumas semanas, cá está o circo. O que prova que os Romanos eram muito sábios na manipulação e “controle” das multidões. Tudo isto seria ridículo se não fosse profundamente dramático. Assistimos, diariamente, às propostas avançadas pela direita, do mais profundo populismo e que mais não visam do que apresentar aos portugueses velhas “soluções”, com vista a alcançar o poder de que está arredada, mas de que por via indirecta tem as rédeas. A única finalidade da direita é a de privatizar todos os sectores susceptíveis de ser lucrativos, ao mesmo tempo que criariam as mais férreas condições de trabalho que levariam os trabalhadores portugueses a condições de trabalho idênticas às que tinham em 1974. Por outro lado, a destruição do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, da Escola pública e de outros serviços, em nome de uma falácia a que chamam “livre escolha”, levariam a uma sociedade ainda mais individual e egoísta com o lema do “salve-se quem puder” como meta, em que apenas quem tem dinheiro teria acesso a esses serviços, sendo os outros relegados para os serviços de favor e por esmola.

É necessário que os cidadãos portugueses, e os trabalhadores em especial, tenham em atenção os exemplos do que foi ocorrendo em outros países da Europa onde o que restava do Estado Social do pós guerra foi sendo destruído e a situação longe de ter melhorado, caiu, de forma visível, num beco sem saída. São os casos do Reino Unido, da Itália, da Irlanda, da Bélgica, dos EUA com o Reagan e da própria Alemanha que, apresentadas como exemplo de desenvolvimento a seguir, estão a braços com dívidas públicas, até mais elevadas que a de Portugal. Como se constata, com a profundidade da crise actual, não constituíram a solução milagrosa. As promessas dos partidos de direita são sempre muito “atraentes” mas as realidades que delas surgem, contradizem tais propostas.

Infelizmente, temos visto o governo Sócrates, apoiado pelo PS, que se considera à esquerda, a cumprir esse mesmo papel na sociedade, esquecendo princípios e promessas eleitorais e pactuando com interesses que não são os da maioria dos seus eleitores.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas