14 May 2010

Comício do Bloco no Porto: as pessoas não estão neste PEC

Na semana em que o Papa visita Portugal, o Bloco de Esquerda realizou um comício no Porto para explicar quem deve pagar a crise e denunciar a “santa aliança” entre PS e PSD. Uma aliança que serve para apoiar as medidas hoje conhecidas – subida do IVA em 1 ponto percentual em todos os escalões e nova taxa sobre os salários. “Um PEC 2 depois de um PEC 1” que mais uma vez não traz qualquer estabilidade e muito menos crescimento, referiu Francisco Louçã.

No cinema Batalha cheio, o líder do Bloco de Esquerda alertou mesmo para a recessão a que podem conduzir as novas medidas anunciadas. Louçã desvalorizou o conselho de Ministros de hoje, até porque antes Sócrates reúne-se com Passos Coelho - “Não sei porque é que é preciso nesta altura porque quem decide sobre o país são as reuniões episódicas que vão ocorrendo entre Passos Coelho e José Sócrates". Aliás, o coordenador do Bloco de Esquerda acusou o Primeiro-Ministro de ser o biombo atrás do qual se esconde o bloco central. O BE já tinha apresentado um PEC alternativo, e Francisco Louçã voltou a defender o pacote de três medidas que passam por taxar o IRC da banca a 25%, tributar as operações com off-shores e taxar excepcionalmente os bónus dos gestores até 75%. Mas a resposta do Governo, e do bloco central, a estas propostas já é conhecida.


Já não somos o país dos brandos costumes

No início do comício o dirigente bloquista João Teixeira Lopes traçou o diagnóstico daquele que é o distrito com mais desempregados no País: no Porto 50 pessoas perdem o emprego todos os dias, o que significa uma média de duas pessoas por hora; há ainda concelhos como Baião onde o desemprego atinge os 20%. “Deixemo-nos de eufemismos”, alertou o dirigente bloquista, que falou num «cenário de catástrofe social». João Teixeira Lopes foi ainda mais incisivo nas críticas ao apontar alterações introduzidas a prestações sociais como o Rendimento Social de Inserção e o Complemento Solidário para Idosos que só prejudicam os respectivos beneficiários. Referindo-se ao crescimento de 1% do PIB, “embandeirado em arco pelo Partido Socialista”, Teixeira Lopes afirmou “tratar-se de um magro crescimento para quem passou anos em divergência”.

No final o dirigente bloquista apelou à mobilização social num país, “que já não é o país dos brandos costumes”. João Teixeira Lopes tinha precisamente começado a sua intervenção por expressar uma divergência política relativamente ao Papa numa referência à declaração em que Bento XVI descreveu o Cardeal Cerejeira como «uma figura de veneranda memória». Um comentário político que remeteu igualmente para uma resposta política por parte do dirigente bloquista: “Tratou-se de um colaborador silencioso dos crimes do fascismo”, afirmou. Também Francisco Louçã criticou a postura das autoridades eclesiásticas ao pretender doutrinar sobre a família e comportamentos sociais: “Quero dizer ao Papa Bento XVI, porque ele não sabe, mas a maioria dos portugueses votou sim à Interrupção Voluntária da Gravidez”.


Trabalhadores “em baixa”, bolsa “em alta”

José Soeiro foi o segundo a falar, e entrou no palco literalmente a correr, depois de uma rápida viagem vindo de Lisboa, onde a sessão parlamentar terminara tarde. E de lá, disse, trazia boas notícias - “Lisboa reagiu em alta, na segunda-feira teve a maior subida de sempre, mas claro, refiro-me sim à bolsa”. E prosseguiu lembrando que o mercado reage positivamente quanto são anunciadas medidas que penalizam os trabalhadores, os desempregados, os mais pobres. Deixou ainda palavras de apoio às muitas pessoas que ficaram sem emprego nos últimos meses, no Porto. Enumerou várias empresas, como a Qimonda e a Yazaky Saltano, dizendo “sabemos a situação dessas pessoas, porque estivemos lá com elas”. Lembrou ainda as consequências psicológicas provocadas pelo desemprego, contrariando os discursos vigentes do bloco central que parecem tratar os desempregados como “preguiçosos bandidos”.

A deputada eleita pelo círculo eleitoral do Porto, Catarina Martins, centrou-se no impacto do PEC na vida das pessoas. Alertou para o facto de o «País ter trocado a ideia de um serviço público pelas privatizações» e de estas terem como consequência «a perda de capacidade de intervenção em sectores estratégicos», uma situação ainda mais grave no caso dos monopólios. “O Governo declarou que as pessoa não têm lugar no PEC”, disse a deputada no início da sua intervenção; “Que fiquem a saber que nós não havemos de deixar que este PEC tenha lugar neste País”, referiu a terminar.

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